terça-feira, 17 de maio de 2011

Fluindo...

Escrito em 07/12/10
Sonhei um dia desses que minha mente discutia como meu corpo. A primeira dizia que sairia para passear e logo voltaria. O corpo respondeu, com certo ar de inveja, para que a mente não fosse longe. Pois a qualquer momento ambos poderiam ser chamados a comparecerem juntos. Recém saída do corpo, a mente informa ao corpo que viajaria de volta para casa, fosse acompanhada ou não. Descrente dessa possibilidade e coragem, o corpo começa a receber relatos minuto a minuto da viagem da mente, que começa dizendo assim: Logo passando pelo teto, achei estranho não carregar sujeira do lamacento telhado. Sinto frio na escuridão da noite, mas sem me incomodar com ele, apenas noto a mudança de temperatura, de luz, de som e a presença agradável do vento fraco e constante. Subi rápido à altura das nuvens, curioso como percebi mudança na direção do vento na passagem de cada nível. Senti a baixa da temperatura e a falta de umidade do ar. De forma a não se explicar, vindo não sei de onde, recebi a informação para qual sentido voar. E assim fui, brincando de baixar e subir de nível percebendo uma vez mais a mudança no ar. Até a concentração de oxigênio eu acho que notei variar. Segui brincando de furar nuvens, e me flagrei rindo por achar engraçado sair no lado oposto, muitas vezes com o rosto molhado. Em seguida já estava sobre o oceano, ainda era noite e eu voava curtindo os encantos do fluido gasoso. Arrisquei trocar e mergulhei agressivo no mar. O impacto foi forte e o mergulho no gelado deu a nítida impressão de uma piscina sem limites. Veio um formigamento gostoso, me senti mais acordado pelo frio, que ainda não incomodava, mas era percebido. Essa ativação me fez dar conta de que o corpo ainda me ouvia relatar a viagem, e alias, dentro da água parecia ter melhor audiência.
A água como fluido é mais gostosa de deslizar, acaricia a pele a todo tempo, e a pressão causada quando em velocidade, nos faz sentirmos incrivelmente vivos. Ainda com a mandíbula fechada, abri os lábios e catei micro organismos como se fosse uma baleia. Sentia o salgado sabor da água fria. Imaginava meus cílios sendo abanados de acordo o sentido dos meus movimentos. Tentei cheirar uma planta vermelha e não consegui. Meus sentidos pareciam ter mudado, o odor era captado na parte posterior e lateral da língua. Segui flutuando, toquei nos peixes, que aqui embaixo, parecem mais escorregadios ainda. Acariciei as algas e provei da estranha viscosidade da superfície delas.
Brinquei tanto, que quando percebi era claro, o sol iluminava o fundo do mar. Talvez compensando o tempo “perdido”, passei a viajar usando uma velocidade cada vez maior. Coloquei a ponta dos dedos na areia ao fundo e segui arrastando, removendo o fundo e aproveitando a sensação de cócegas. No segundo em que pensei se estava ou não relatando essas coisas para o corpo, senti uma forte fisgada, uma picada na mão. Parei, olhei e notei ter atingido um animal semi-enterrado. Os dedos correndo na areia tocaram e até machucaram as patas desse estranho animalzinho, que parecia uma lagosta achatada. Os espinhos da pata dele fizeram meu dedo sangrar. Sendo apenas um pensamento, uma mente, achei estranho isso acontecer e perguntei ao corpo como isso seria possível. De dentro de mim, sem responder com voz distante como antes, apenas me fez perceber que já viajávamos juntos. Éramos um só ali mergulhando de volta pra casa.

Acordei na minha cama aqui em Dublin, não consegui chegar a minha cidade, a minha casa, abraçar a minha mãe ou muito menos te tocar dormindo. Fiquei triste com a situação real, extremamente saudoso da viagem e confiante na próxima jornada.

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