segunda-feira, 16 de maio de 2011

Essa foi show

Escrito em 01/09/10
Quando agente cresce e envelhece, mudamos nossos gostos, preferências e conceitos. Aprendi a ser racional nas compras, quase nada de futilidade. Aprendi a ser mais maduro em lidar melhor com minhas emoções, nada de desespero.
Quando eu era adolescente gostava muito de freqüentar shows, acompanhar bandas, assinava revistas sobre o assunto. Mas nunca fui, e até me mantive bem crítico aos gritos histéricos e as tentativas que as pessoas fazem de tentar absorver alguma característica de seu ídolo. Uma das bandas mais ouvidas nos meus anos de espinhas explodindo era Guns N’ Roses. Comprei fitas, traduzi letras, sonhei com shows que nunca vi, mas nunca tentei imitar ninguém ou gritei como maricas o nome do Axl, mesmo porque não tem como gritar um nome desses. Passados mais de 15 anos do ponto alto da minha era fã, quando pensava já estar imune a qualquer ação com motivação passional, eis que caminhando pela rua ouço percutir de longe algumas notas conhecidas. Na próxima esquina, olhando pela rua transversal, noto uma aglomeração junto ao rio e aí nitidamente ouvi os acordes e a voz original cantando Sweet Child O’ Mine. Imediatamente lembrei que os donos da música fariam um show na cidade na semana que vêem. Estariam já fazendo algum tipo de divulgação? Já a caminho da multidão me lembrei que o show é hoje e não semana que vêem. O frio na espinha não foi mais rápido que minhas pernas, que já me puxavam em direção ao som. Fui chegando perto, o horizonte entre os prédios foi se abrindo e enfim dei de cara com a grande avenida que margeia o Rio Liffey. Em ambos os lados haviam pessoas de todas as idades, boa parte delas com as mãos levantando celulares e câmeras para guardar e exibir na posterioridade o que os olhos custaram algum tempo a acreditar. Dentro do Rio, em cima de um barco estavam montados um palco completo, e sobre eles a banda Guns N’ Roses fazia festa e deixava enlouquecida a multidão que parou na rua para cantar junto os sucesso antigos. Talvez com mais fervor que 15 anos atrás, eu cantei, gritei e até chorei vendo ali tão de perto, assim de surpresa, alguns dos personagens da minha adolescência. Durou pouco tempo, mas assim como um infarto, foi agudo e fez doer esse coração. Me senti idiota e até culpado depois, é apenas uma banda de rock, mas é o Guns e caiu assim, sem aviso, nos meus pés aqui em Dublin. Dentro da carga de emoção que me dominou por algum tempo, ainda tentando me aclamar do susto, e impulsionado por ele, me permiti mais uma vez, no mesmo dia, ser impulsivo e comprar futilmente. Adolecendo mais uma vez eu comprei o que há bastante tempo habitava meu imaginário consumista. De posse de uma máquina fotográfica profissional, voltei feliz pra casa, hoje pelo menos não tenho espinhas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário