segunda-feira, 16 de maio de 2011

Escrito em 13/10/10
Hoje eu encontrei um amigo na farmácia, ele estava acompanhado da filha irlandesa de quatro anos. Depois da décima palavras com ele eu senti um puxão na minha calça. Olhei pra baixo e vi uma linda menina ruiva de bochechas fofas e olhos grandes e brilhosos que me perguntou se a conversa seria de adultos. Além do português perfeito igual ao do pai, achei diferente a postura corajosa e atrevida da sardenta. Respondi que não seria uma conversa de adultos. Ela então me “empurrou” um pouco pra o lado e disse que sendo assim participaria da conversa também. O riso inevitável foi cortado pelo olhar de censura que recebi. Antes de recomeçar a conversa ouvi-a perguntar se eu sabia o que ela gostaria de ser quando “adulta”. Óbvio que não sabia, antes de explicar isso ouvi ela responder que seria professora. Que ensinaria muitas pessoas e que se pudesse presentearia todos com muitos livros. Ela adora ver os outros lendo, nem sempre concorda com o tipo de leitura, mesmo assim acho bom ver os outros lendo pois não gosta de gente burra, de gente que não sabe ler e fazem coisas ruins. Se as pessoas no mundo lessem, o mundo seria melhor, porque pessoas burras fazem coisas erradas, feias e ruins.
Ajoelhei-me e quando fiquei sem palavras a um palmo do nariz dela, ela olhou pra mim examinando todo meu rosto com a mão fofa esticadinha mas sem me tocar e disse: “tu é bonito mas tem que fazer a barba, vai puxar os fios do cachecol”. Mais baixo, talvez pra ela mesma eu ouvi fraquinho dizer: “... e tem cara de bobo chorão também.” Pasmo eu lembro de ter ficado meio tonto, olhei pra cima e vi o pai sorrindo orgulhoso. Desorientado, vi que disseram algo e saiam em direção à porta. Ela seguia olhando pra mim, rindo e abanando. Levantei rápido e perguntei correndo: “qual teu nome?”. A resposta veio como um soco no peito e me jogou mais uma vez tonto no chão. Maitê, Maitê é meu nome. A ordem das palavras dela me soou de forma estranha, mas imediatamente e inevitável me fizeram lembrar de um outro anjo que passou e ainda está na minha vida e eu havia reconhecido naqueles e olhos sem me dar conta.

Se fosse filha talvez não fosse tão parecida na postura, nos olhos, nas bochechas e nas idéias. Lembrei da importância da passagem de pessoas boas na nossa vida. Lembrei de já ter escrito isso para a minha Maitê, então repito:

Com o passar do tempo agente vai conhecendo pessoas, com elas segue-se conversando, namorando, sendo amigos, inimigos, quase desconhecidos, colegas, ou simplesmente não nos lembramos mais. O esquecimento chega, e é dessa forma que guardamos e às classificamos em nossa memória, tudo de acordo com a importância da passagem delas em nossa vida.
Por outro lado, existem pessoas que agente conhece pouco e há tão pouco tempo, e que mesmo assim, nos perguntamos como é que conseguimos viver tanto sem a presença delas. Sem muita cerimônia, nem tão pouco permissão, essas pessoas entram na nossa vida e já roubam parte delas para si, pois de uma forma que não se explica, nos transformam pensamentos, mudam atitudes, refazem conceitos, dissimulam vontades e nos fazem descobrir sensações. Deixando-nos sem mais nos conhecermos, pois pensamos anteriores a esse acontecimento já não valem mais. Idéias se foram, sonhos vieram e medos também. Talvez nunca mais se veja ou sinta-se essa pessoa, mas a idéia e o brilho permanecem dentro de nós, a luz do desenho de cada canto do rosto e do corpo vai ficar vivo na memória até que a falta de lucidez já não permita mais assim lembrar. Mas enquanto houver lógica no raciocínio, haverá um pensamento direcionado a essa pessoa, sempre com carinho e com um muito obrigado. Obrigado por ter me visto e ter me enxergado, obrigado por me perceber e me deixar tocar-te. Obrigado pelo beijo e pelo sonho, obrigado pelo sorriso e pelo colo, obrigado por me permitir ser teu amigo, obrigado por tudo. E é assim que você é pra mim, te amo.

Essas palavras foram escritas em 2005 e hoje estão mais vivas ainda em minha mente e reitero o que disse, hoje com emoção redobrada, com a saudade multiplicada e um amor incondicional guardado no peito.

Se hoje as tuas fotos eu não olho mais é para não acordar a saudade sufocada dentro do peito. Se te ligo todo o domingo é pra lembrar que pelo menos um dia da semana eu posso me permitir morrer e voltar a viver.
Te carrego aqui comigo meu anjo lindo.
Segue aí que eu sigo aqui.

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