segunda-feira, 16 de maio de 2011

De que vale, o quanto vale tudo isso...

Escrito em 16/11/10
Daqui para frente a vida aqui em Dublin funciona em contagem regressiva. Até aqui foram 6 meses. Parece ter sido há dez anos que deixei minha cidade, parece também ter chegado aqui apenas 15 dias atrás. Deixei minha vida onde desfrutava de tranqüilidade, gozava de um certo conforto, possuía a paz trazida pela liberdade de quem é independente e mora sozinho.
Desembarquei em um lugar onde não entendia o que me diziam e onde raramente era compreendido. Não conhecia as ruas, as linhas de ônibus, os alimentos e a cultura. Fiquei sem carro, comecei a dividir até quarto com estranhos, trabalho até hoje de lavador de pratos em um hotel sem estrelas e ainda não sei falar inglês.
Passei por 4 casas, visitei alguns países e várias cidades, e quando achei que sabia muito do zoológico Brasil, acordei para o mundo animal dos modernos europeus. Vi muita coisa estranha, gente bonita, bizarra e descobri para que foram feitos os carros conversíveis. Visitei Fortes, Castelos e outros lugares não tão nobres, andei por cenários perfeitos de lindos filmes. Participei da festa de “natal” dos muçulmanos, recebi benção do Papa, xingão de músico, cantada de bêbado e praga de puta. Fiz muita festa, estudei bastante para quem tinha tempo magro e muito pouco para quem quer aprender outro idioma. Aprendi a andar na rua sem preocupação e a pedir desculpas mesmo quando se está com a razão.

A mistura de culturas mudou um pouco a cabeça, preconceitos deixaram lugar a novos valores, agreguei musicas novas à trilha sonora da minha vida. Aprendi a valorizar o que é autentico, Pub Irlandês é só na Irlanda mesmo, churrasco é de coisa gaúcho e gente estúpida e fútil existe em qualquer lugar.

O fato é que não gostaria de me apegar a esse pequeno lugar, gostaria de ter minha passagem aqui apenas como trampolim e não ancora. Mas já sinto meu coração em parte preso na cidade que deixarei para trás em mais seis meses. Hoje corro para visitar os lugares que ainda não fui, fotografar o que ainda não registrei.
Coisas do coração agente não escolhe, não mede. Mas me flagrei triste hoje ao voltar do trabalho e deixar o cenário de Dublin para trás quando fechei a porta do prédio. Apesar do frio (-1ºC) e a quietude, eu gostaria era ficar mais na rua, de me sentir e me ver aqui.

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