Escrito em 25/12/10
Ontem recebi uma mensagem de um amigo, na verdade um irmão. Depois liguei pra ele e conversamos rápido, ele contou do filho que curtiu muito brincar uns dias na praia. Lembrei da minha infância.
Invariavelmente lembro-me da infância quando falo em praia e natal.
Depois, já em casa abri uma garrafa de leite, que diferente do Brasil, tem cheiro de leite. É mais forte e até enjoativo. Isso me lembrou a infância mais uma vez. Quando era pequeno, o leite lá em casa chegava à moda antiga. Era trazido todas as manhãs em duas grandes leiteiras de alumínio que ficavam na parte de trás da carroça. O som de chamada do leite variava, ou era o grito “Oooolha o leite” ou eram duas batidas com o cabo do relho na lateral da carroça “toc toc”. Engraçado que aquele ritual de certa forma era esperado todas as manhãs. Não sei se pela curiosidade que os entregadores provocavam ou a rotina de ver minha irmã gordinha sair correndo porta fora e saltar direto em cima da carroça, ela adorava aquilo, e nós adorávamos ver ela correr assim. Curioso também como a memória pode ser fiel às vezes. Lembro muito bem de quando eu pegava a leiteira limpa de dentro de casa, sempre esperava que elas voltassem ainda limpas, mas com leite dentro. Impossível, sempre vinha pelo menos uma gota correndo pela lateral e meia dúzia de pêlos colados nela. A grande leiteira da carroça, assim como a própria, já tinham cheiro de leite e pêlo de vaca por todo lado. Incrivelmente, isso deixavam aquele leite com cara de puro, de fresco, tirado na hora. Acho que era publicidade essa “porquice” toda. Lembro bem também que quando as batidas nas leiteiras soavam ocas, era porque estavam quase vazias, sendo assim, nós éramos os últimos. A gordinha não teria tempo de pilotar os cavalos e teríamos de arranjar alguma desculpa rápido.
O ritual do leite não acabava aí. Da leiteira pequena (com desenho de leiteira inclusive) o leite era derramado direto dentro de uma panelão, passando pelo coador primeiro é verdade. Depois fervido, esfriado e aí sim, disponível para o consumo.
Lembro que uma das atividades consideradas castigo em casa era cuidar o leite. Quando se fazia alguma arte, a punição vinha na forma de “Cuidador de Leite”. Tinha que ficar ali na cozinha, ao lado do fogão esperando o leite ferver e desligar a chama antes que derramasse. Claro que esse leite derramava quase todos os dias. Quando um deixava o leite derramar, era logo avacalhado pelos outros. Às vezes acho que era de propósito, só para poder sentir o cheirinho doce de leite queimado e depois começar mais uma briga com os provocadores.
Coisa boa são as lembranças de infância, isso para quem teve uma. Tive sorte, acho que tive uma infância bem rica, cheia de experiências, medos, expectativas e muitos, muitos sonhos. Obrigado mãe.